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Hidrofobia

  • 24 de mar. de 2016
  • 3 min de leitura

Você chegou, achei que era pra preparar a vida, até comecei a ajeitar as coisas, esvaziei espaços para que você pudesse se instalar com conforto, fui me livrando de tudo que já não servia mais e por puro costume ainda estava aqui. Você tinha cheiro de vida nova, me despertou pro mundo, logo eu que já estava no automático à muito tempo, sem sentido por aí, vagando descrente. Meses depois percebi que deveria apenas ter feito um café, um chá de repente, ou colocado umas cervejas pra gelar. Não precisava de tanto empenho, você sempre vinha de visita, com data e hora marcada pra partir. Logo eu, que fujo dos sentimentos mais fortes, prefiro o raso, onde meu pé alcança o chão e eu mantenho o controle de tudo, cheguei a cogitar em me jogar, mergulhar de cabeça, ir com tudo. Sorte a minha esse bloqueio emocional que sempre me avisa que tá perigoso e constantemente me faz recuar. Arrumei minhas malas e parti. Sem dó, sem olhar pra trás, sem muitas delongas. Sai com tanta pressa, medo de perder a hora e não conseguir mais ir, que esqueci a porta aberta. Porta essa que você fez questão de segurar. Vez ou outra uma olhadinha da brecha pra ver como estavam as coisas por aqui. Um telegrama descomprometido pra sondar o território. Um sinal de fumaça pra não se deixar esquecer. E ai então, por coragem, carência, curiosidade, não sei, você veio. De novo, passeando, com aquele sorriso que me desmonta, e claro, te deixei entrar. Eu não sei porque e/ou pra que você decidiu voltar, não sei se tá precisando de abrigo temporário, se está só de passagem, se já tem planos de partida ou vai ficar pro jantar. A questão é que sua presença incomoda. Seu retorno assusta. O tal sorriso me desconcerta, teu abraço me faz questionar. Afinal, você nunca deveria ter ido ou nem deveria voltar? Não sei o que esperar, aliás, acredito que não devo e tento não esperar nada, a vida já nos deu uma chance e construímos um castelo de areia, porque agora conseguiríamos nos estruturar? Sempre pensei que amor, esses que a gente vê e se pergunta quando vai encontrar, chega atropelando, arrebata de uma vez, quando a gente vê já é, não sobra tempo pra pensar. Essas chegadas inconstantes, esses encontros com reencontros indefinidos, essa calmaria toda, só me fazem pensar que não é você, que não somos nós, mais uma vez não vai vingar. Talvez nossa árvore não seja frutífera, não adianta eu regar. Me questiono se estou sendo infantil, sonhadora, me baseando em contos, novelas, filmes. Já me disseram que o amor exige paciência, tempo e cuidado, até consigo concordar mas minha impulsão me pergunta o tempo todo se eu tenho esse tempo pra perder, de novo. Se eu quero me dispor a isso, de novo, mesmo sem garantia nenhuma e um antecedente duvidoso. A pior parte, o que mais me angustía, é minha falta de respostas. Eu não sei se devo, o alarme, lembra? Ta gritando aqui dentro: Perigo! Você me tira da minha zona de conforto e isso me assusta, me inquieta, só que eu sei que pra gente ser feliz é necessário tirar as amarras, perder o medo e arriscar. Mas você é uma incógnita tão grande, até hoje, mesmo depois de tanto tempo...

A questão é que estou aqui, mais uma vez, com os pés dentro dágua, sem bóias, assustada, mas querendo pular. Tem água suficiente ou é melhor eu recuar?


 
 
 

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